No mundo dos pagamentos de cartão não presente, o foco já não está mais na "autenticação com fricção". As bandeiras estão liderando uma nova tendência, em que o 3DS deixa de ser o protagonista e a segurança passa a ser definida pelo contexto, não pelo challenge.

É o uso cada vez mais frequente da autenticação silenciosa, baseada em token, criptograma e dados contextuais.

A mudança de paradigma: Hoje, as bandeiras já consideram certas transações tokenizadas como autenticadas, mesmo sem 3DS — mas fazem isso de maneiras diferentes. Para entender como isso funciona, precisamos entender o VDCAP (Visa) e o TAF/SCOF da Mastercard.

VDCAP — Visa Digital Commerce Authentication Program

O VDCAP é um programa criado pela Visa para validar e proteger transações tokenizadas no ambiente Card-Not-Present (CNP) — especialmente em apps, carteiras digitais e plataformas de e-commerce.

Quando a Visa marca a transação como "autenticada"

Se a transação:

  • For tokenizada (provisionada pelo VTS — provisionamento realizado por um Token Requestor registrado)
  • Tiver um TAVV válido
  • Estiver com campos específicos preenchidos (Field 34, 56, 111)
  • O emissor estiver habilitado

…a Visa marca automaticamente a transação como autenticada, mesmo sem challenge 3DS.

Campos críticos para elegibilidade VDCAP

Atenção: Os campos Field 60.8 = 07 e Field 63.6 = 7 são essenciais para que a Visa identifique a transação como potencialmente elegível ao VDCAP, mesmo antes de aplicar a Tag 89 no Field 111.
CampoValorDescrição
Field 34Token PANToken provisionado via VTS
Field 56Token Cryptogram (TAVV)Criptograma do token — prova de presença do dispositivo
Field 60.807Indica transação tokenizada e elegível para VDCAP
Field 63.67Sinaliza o canal digital da transação
Field 111 / Tag 89Gerado pela VisaIndicador de autenticação VDCAP — NÃO deve ser enviado pelo adquirente
Atenção: A Tag 89 em Field 111 é preenchida pela Visa. O adquirente não deve enviá-la na requisição.

Benefícios do VDCAP

  • Menos fricção no checkout
  • Maior taxa de aprovação
  • Menos chargebacks
  • Proteção do emissor preservada

BASE II — o que fazer quando Tag 89 = 1

Se o adquirente recebe Tag 89 = 1 na autorização, ele deve propagar essa informação no arquivo de clearing (BASE II) para garantir que a transação seja reconhecida como protegida no ciclo de disputa.

Se os campos Field 60.8 e 63.6 não forem enviados, a Tag 89 no Field 111 não será gerada pela Visa. A transação não será VDCAP-eligible — o emissor poderá abrir disputas normalmente e o adquirente ficará com o ônus financeiro.

TAF — Token Authentication Framework (Mastercard)

O TAF é o mecanismo da Mastercard que define a validade da autenticação com base em UCAF + metadata do token.

Através dele é possível avaliar se uma transação CNP com token pode ser considerada autenticada e garantir liability shift para o emissor.

O TAF é o "motor invisível" da autenticação da Mastercard para transações tokenizadas. Ele permite dispensar 3DS, proteger contra disputa e autorizar com segurança — desde que o contexto seja confiável.

Elementos obrigatórios para elegibilidade TAF

CampoValor / TipoDescrição
TokenProvisionado via MDESToken Mastercard Digital Enablement Service
DE 48.61UCAF válidoUniversal Cardholder Authentication Field — criptograma do token
DE 2281, 91, 80, etc.Entry Mode — indica o canal de captura da transação
DE 63.2Canal específicoChannel-specific indicators (In-App, Web, etc.)

SCOF — Secure Card on File Program (Mastercard)

O SCOF é um programa da Mastercard que registra e certifica o uso seguro de cartões armazenados digitalmente — os chamados cards on file: cartões que ficam salvos em apps, wallets, navegadores ou plataformas de e-commerce.

Objetivos do SCOF

  • Registrar o token e seu comportamento esperado (file-based, one-click, recurring)
  • Definir a elegibilidade para liability shift
  • Evitar exposição do PAN, com uso obrigatório de tokens MDES
  • Reduzir risco em transações recorrentes ou salvas
  • Permitir autenticação sem fricção via token e dados contextuais

Critérios de elegibilidade SCOF

Para que uma transação seja elegível ao SCOF, ela precisa:

  1. Ser tokenizada via MDES, com:
    • TRID (Token Requestor ID) — identificação do requestor do token
    • Token Reference ID — identificador único do token
    • UCAF (Criptograma) — prova criptográfica da autenticação

A jornada completa: do salvamento do cartão à autorização

1

Merchant salva o cartão

O PAN vira token via MDES. O token é provisionado com TRID, Token Reference ID e UCAF.

2

Token registrado no SCOF Directory

Canal de uso (web, app, recurring), Token Requestor ID e nível de confiança (assurance level) são registrados.

3

Usuário faz pagamento com cartão salvo/tokenizado

O sistema (app ou site) prepara a requisição com o token.

4

Geração do UCAF

O sistema gera um UCAF contendo: criptograma baseado no token, assurance level e metadata do canal.

5

Autorização com TAF ativo

O adquirente envia a transação com DE 22 (entry mode: 91, 81…), DE 48.61 (UCAF criptografado) e DE 63.2 (canal/contexto).

6

Verificação Mastercard

O token está registrado no SCOF? O UCAF é válido e consistente? O assurance level é suficiente para isenção de 3DS?

Resultado quando a verificação é positiva: A transação é considerada autenticada pelo TAF/SCOF — sem necessidade de challenge 3DS, com liability shift para o emissor e maior taxa de aprovação.

Comparação: VDCAP (Visa) vs TAF/SCOF (Mastercard)

AspectoVDCAP (Visa)TAF/SCOF (Mastercard)
Serviço de tokenVTS (Visa Token Service)MDES (Mastercard Digital Enablement Service)
CriptogramaTAVV (Token Auth Verification Value)UCAF (Universal Cardholder Auth Field)
Campo de autenticaçãoField 111 / Tag 89DE 48.61
Campo de canalField 60.8 e 63.6DE 22 e DE 63.2
Quem gera o indicadorA Visa (Tag 89 gerada pela rede)O adquirente (DE 48.61 enviado com UCAF)
Liability shiftSim, para o emissorSim, para o emissor
Dispensa 3DSSim, quando elegívelSim, quando elegível
Resumo da diferença filosófica: No VDCAP, a Visa é quem "certifica" a autenticação gerando a Tag 89. No TAF/SCOF, a Mastercard valida o UCAF que o adquirente enviou com base no registro do token no SCOF Directory. Ambas chegam ao mesmo resultado — autenticação silenciosa, aprovação mais alta, menos fraude — mas pela perspectiva técnica, os campos e responsabilidades são distintos.